No último mês, estive em Boa Vista, capital de Roraima. Fui ministrar um curso de Língua Portuguesa a servidores e juízes do Tribunal de Justiça daquele Estado.

Voltei de lá muito bem impressionado com a cidade, que achei muito limpa, organizada, com um charmoso “quê” de cidade do interior.

O que mais me impressionou, todavia, foi a variedade linguística que caracteriza o Estado, que hospeda inúmeras etnias indígenas, com costumes e língua ainda preservados.

A propósito, os “Macuxi” (no singular, realmente, sem fazer a concordância) representam a tribo indígena mais numerosa do Estado. A influência dessa etnia indígena no Estado levou o habitante de Roraima a se autodenominar, carinhosamente, “Macuxi”, em homenagem aos valentes guerreiros daquela tribo. Daí o título dado ao presente artigo: Curiosidades gramaticais da “terra dos Macuxi”.

Em tempo, ressalte-se que o vocábulo “macuxi” é grafado com -x por ser de origem indígena. O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, em sua 5ª edição, abona-o, ao lado de “macuxixiriense”. Lembre-se da regra ortográfica: coloca-se -x em Macuxi pela mesma regra do abacaxi e xavante.

No campo da acentuação, as oxítonas terminadas por -i não recebem o acento gráfico. Portanto, não se pode acentuar “Macuxi”, da mesma forma que não acentuamos sucuri e buriti. Aliás, estes dois nomes têm muito a ver com Roraima: a sucuri, a maior de todas as cobras brasileiras, vive nos igarapés roraimenses. E, curiosamente, às margens destes, você vai encontrar o buriti, de cuja polpa sai um bom vinho e deliciosos doces.

 

Mas as curiosidades gramaticais sobre o majestoso Estado não param por aí. Note mais algumas, separadas em itens:

 

1. Fala-se /Roráima/ ou /Rorãima/?

O roraimense costuma falar /Roráima/. Não usa o som “do nariz” /ãi/, como em boa parte do Brasil. Notei isso em minha estada em Boa Vista. Todavia, sempre ensinei em sala de aula que duas formas são aceitáveis. Se falamos /Jáime/, podemos pronunciar /Roráima/, com o timbre aberto, sem nasalização. Por outro lado, falamos /andãime/, /Êlãine/ e /pãina/, nasalizando o ditongo. Daí se aceitarem as duas formas. Acho que a pronúncia com o timbre aberto é mais regional, própria do Norte do Brasil; no restante do País, entretanto, costuma-se usar o timbre fechado, com som nasal.

O mesmo raciocínio pode ser estendido à palavra “Pacaraima”, que indica uma cidade do Estado, próxima à Venezuela. Aceito como legítima a pronúncia regional /Pacaráima/ e acredito que, no Brasil afora, a tendência será falar Pacaraima (ãi). Não vejo a questão como certa ou errada, mas como um dado de preferência regional. Não teria coragem de ensinar a meus alunos que a pronúncia com o timbre aberto (/Roráima/ ou /Pacaráima/) apresenta um erro de ortoepia. Aceito ambas.

 

2. Você usa a expressão “do Oiapoque ao Chuí”? Esqueça-a…

Quando queremos dizer que algo vale em todo o Brasil, usamos a expressão  “do Oiapoque ao Chuí”. Tirante o fato de que se trata de um clichê, a ser evitado nos textos mais rigorosos, ela encerra um grave problema “geográfico”. Passo a explicar:

Na expressão, Oiapoque está indicando o ponto extremo ao norte do Brasil e Chuí, o ponto extremo ao sul.

O problema é que as recentes pesquisas cartográficas mostraram que o ponto mais setentrional do Brasil não é mais o Oiapoque, mas um ponto geográfico localizado no Estado de Roraima, na fronteira com a Venezuela. Eu me refiro ao Monte Caburaí. Portanto, adeus à expressão “do Oiapoque ao Chuí”. Devemos substituí-la por: “Do (Monte) Caburaí ao Chuí”. Veja que até surgiu uma boa rima!

Em tempo, frise-se que os vocábulos “Caburaí” e “Chuí” recebem o acento gráfico pela regra de acentuação dos hiatos. Na separação silábica dos termos (Ca-bu-ra-í; Chu-í), nota-se que as vogais ocupam sílabas diferentes (Ca-bu-rA-Í; ChU-Í), ficando a letra “i” isolada na sílaba final. Nesses casos, o acento será obrigatório. É o que acontece com os termos anhangabaú, Itaú, juízes, juíza e outros.

 

3. Como se pronuncia “Guiana”: /Gu-iana/, /Gui-ana/ ou /Güi-ana/?

Inicialmente, vale relembrar que o Estado de Roraima faz fronteira com a Venezuela e com a República Cooperativista da Guiana. Este último País, localizado bem ao norte da América do Sul, tem em seu nome mais comum (“Guiana”) uma pronúncia que pode nos pegar desprevenidos. Seria /Gu-iana/, /Gui-ana/ ou /Güi-ana/?

Tenho recomendado em sala um macete: pense em nosso nome próprio RUI. Esta palavra é forma por uma sílaba apenas, na qual se destaca o ditongo ui. Da mesma forma, faremos a separação silábica de “Guiana” (Gui-a-na) e seguiremos fiéis na pronúncia /Gui-ana/. Veja que o “u” é pra ser pronunciado, constituindo-se o ditongo com o “i”, na forma ui.

Reconhecemos que a realidade sonora do termo é um tanto estranha, desafiando nosso sistema gráfico, mas isso não nos permite modificá-lo. Se quiséssemos usar o trema, por exemplo, encontraríamos dois problemas: 1. o trema foi abolido pelo recente Acordo Ortográfico; 2. a pronúncia, com o uso do trema, seria outra. Passaríamos a falar /güi-ana/, como falamos /argüir/, hoje já escrito sem o trema (arguir). Por outro lado, se pretendêssemos acentuá-lo, criando a forma “Gúiana”, teríamos também um empecilho: mudaríamos de lugar a vogal tônica da palavra (Gui – A – na). A penúltima sílaba “A” é a sílaba tônica. O acento no “u”, na sílaba “Gui”, não teria cabimento.

Portanto, devemos continuar escrevendo “Guiana” e falando, exoticamente, /Gui-ana/, como na palavra “Rui”. Evite, assim, falar /Gui-ana/, como você pronuncia o termo “Guiné”, ou /Güi-ana/, como você pronuncia o termo “arguir”.

 

Esses são alguns detalhes gramaticais que pude colher dessa viagem agradável a Boa Vista. Voltarei ao Estado, se Deus quiser. Aliás, Ele há de querer, pois aprendi com Dorval de Magalhães, que escreveu o Hino do Estado, que Roraima é a “benesse das mãos de Jesus”.

 

 

 

 

 

 
Jornal Carta Forense, terça-feira, 4 de maio de 2010

 

 

FONTE: http://www.cartaforense.com.br/Materia.aspx?id=5545

 

 

by Luiz Pinheiro

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